domingo, 17 de março de 2013

Mudanças: será mesmo preciso?

Olá para vocês...
Quero falar o que ando pensando ultimamente sobre a vida, seus sofrimentos e dificuldades.
Que difícil hein? A vida e seus sofrimentos!
Sabe vivo o dia a dia da dependência química e sempre acredito que alguma coisa vai mudar, mais dificilmente muda. É sempre a mesma coisa, destruição sobre destruição.
O dependente sofre, a família sofre todo mundo sofre.
Creio estar sofrendo também, sofro por não conseguir mudar as coisas, por muitas vezes não conseguir entender o sofrimento tanto meu quanto dos outros, sofro por não conseguir ajudar e por também ver constantemente que muitos não querem ajuda.
Muitos querem somente remendar suas vidas, fazer reformas externas que não vão resolver os problemas de estrutura. É como se fossemos um edifício com rachaduras por todos os lados e acharmos que apenas passar uma mão de tinta vai resolver, no final fica uma coisa tipo sepulcro caiado, bonito por fora e feio por dentro.
O engraçado é que na maioria das vezes reagimos assim mesmo, todos nós.
As mudanças tem que vir de dentro para fora e não ao contrário, porque senão se tornam apenas soluções temporárias para nós. Mudar o cabelo ou comprar uma roupa nova pode nos trazer durante um tempo um bem estar ou elevar a estima mais não vai resolver o problema com relação ao sentimento interno de desvalorização pessoal.
Comprar um super carro, uma mega casa ou apartamento, aparelhos eletrônicos de última geração também não vão mudar a verdade de si mesmo, vão apenas mascarar.
Tudo isso já foi feito antes, sempre deu o mesmo resultado, a única forma é fazermos essas mudanças.
Como fazê-las provavelmente você está se perguntando?
Uma autoanálise é o ponto de partida, olhar o que gosta e não gosta em sua vida, quando as tiver descoberto o ideal é amplificar o que gosta e entrar com medidas para reverter o que não gosta.
Existem diferentes formas de analisar esses pontos satisfatórios e insatisfatórios que podemos dividir em 2 categorias em internos e externos.
Os fatores internos estão ligados a forma como se vê e interage com você e os externos em como fatores externos a você interfere em você externa e internamente.
Os fatores internos negativos geralmente estão relacionados a: baixa estima, desmotivação, vergonha de algo em si mesmo, sentimentos de raiva, frustração ou medos e por ai vai, como por exemplo vergonha do corpo, medo da rejeição, medo do fracasso, raiva de tudo e de todos, não se achar capaz e etc.
Os fatores externos negativos que influenciam internamente na grande maioria estão relacionados a: disfunções familiares, profissionais, relacionamentos, materialismo muitas outras coisas, por exemplo não gostar de seu trabalho, de sua casa, da forma como é tratada pelos outros, preocupações excessivas com a aparência e etc.
Olhando agora os pontos separadamente e seus exemplos podemos perceber que eles se cruzam e/ou se fundem o tempo todo. O maior exemplo que posso dar deste cruzamento ou fusão é a frustração e raiva que tanto o dependente químico quanto nós sentimos (fator interno) por insistentemente tentarmos modificar ou controlar o outro (fator externo) e em minha experiencia vejo que este é um dos maiores sofrimentos pelo qual passamos muito constantemente na vida e no dia a dia. 
Os fatores internos e externos primeiramente são combatidos com aceitação deles, depois se deve entrar com maior valorização pessoal no caso dos internos e nos externos entrar com medidas que possam modificá-los externa e internamente.
Existe uma formula muito boa para os conflitos internos chamada terapia do espelho e funciona assim, fique de frente para um espelho e comece a falar com você sobre o que não gosta e também a dizer o que você gosta, diga frases do tipo “não gosto disto, não gosto daquilo, não vou mais me permitir isso ou aquilo, diga também que você é especial, capaz, lindo(a) e até mesmo “Eu te Amo”. Tente por algum tempo fazer isso e veja o resultado da elevação da autoestima.
Nos caso dos externos tome ações que mude o que está sentindo, algumas coisas podem ser resolvidas também através da terapia do espelho mais em alguns casos deve-se mudar alguma coisas de forma mais direta e real. Por exemplo, mudar de emprego para algo que goste de fazer, mudar um relacionamento que não está bem, parar de se preocupar insistentemente de forma materialista e por ai vai.
Temos que buscar gerar prazer em nós de forma assertiva, isto é, se valorizando como seres humanos  mudando fatores internos e externos em igual proporção.
Como falei no início temos o defeito de apenas modificar o externo e não dar atenção ao interno, o dependente químico principalmente tenta o tempo todo modificar o externo, e se esquece ou até mesmo abandona o interno. Os motivos são muitos para isso e já foram citados alguns aqui como a vergonha, culpa, medo, imaturidade e outros e todos eles levam o dependente a não vivenciar a realidade que tem que aceitar, como diz um slogam famoso “a dor é inevitável o sofrimento é opcional” e é disso que não só dependente tem medo mais todos nós, medo da dor.
A dor da culpa, do remorso, da frustração, do desalento, da solidão, do abandono, do fracasso, da mudança e etc.
Temos que lutar contra a nossa dor, enfrentá-la e vencê-la.
Para terminar desejo á todos vocês meus amigos muito sucesso nesse processo doloroso conhecido como “crescimento” que dói e dói muito deixo também esta fantástica frase para reflexão: “somente quando à dor de permanecermos o mesmo for maior que a da mudança, poderemos mudar”

Boa semana a todos e até o próximo post.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Experiências Pessoais

Olá meus amigos leitores hoje vou postar algo diferente do habitual, tenho em minha posse um depoimento de uma pessoa que me enviou um e-mail desejando compartilhar sua experiência no assunto e também uma entrevista feita com um adicto que se propôs também a relatar sua experiência com a dependência química e sua recuperação. Espero que gostem.

Depoimento da X


Olá Ulysses, meu nome é X e gostaria de compartilhar com você e os leitores do seu blog, minha experiência em relação ao tema (Adicto/co-dependência) resumidamente. Para falar a verdade quando me propus a escrever este depoimento achei que seria fácil, porém tive um pouco de dificuldade de encarar estas questões ou de “me encarar”, mas vamos lá...Nasci numa família bem grande, com vários irmãos e fomos criados entre tios, primos e sobrinhos... Tudo junto e misturado. Para nós a bebida era uma coisa normal, cresci vendo meu pai chegar bêbado e sempre agressivo com a gente e principalmente com a minha mãe! Então beber cedo foi normal para todos nós, eu mesma sempre me relacionei com pessoas que bebiam ou usavam drogas, pessoas não muito carinhosas ou problemáticas ou carentes de alguma forma porque eu só sabia lidar com estas pessoas e me sentia em casa! Quando conheci meu atual relacionamento, começamos a sair, beber e claro, sem muitas surpresas, logo veio a noticia de que ele usava drogas! Que pra mim não foi problema, porque eu achava que sabia lidar com pessoas problemática, neste período tivemos vários afastamentos devido á internações  e recaídas mas eu sempre achava que as coisas um dia iam melhorar, e com isso aceitava o uso de drogas na minha frente e até facilitava para ele o acesso, justamente por falta de conhecimento e por achar que estava o ajudando. Esta situação durou anos até que ele chegou ao fundo do poço dele e com sua própria força hoje esta sem usar há alguns anos! No começo da recuperação dele tive muita dificuldade de lidar com a falta da bebida, das loucuras, pois fazíamos tudo juntos, demorei até entender que também tenho um problema, o que me ajudou muito foi acompanha-lo nas reuniões do NA porque assim pude entender que o vício é uma doença, e fui procurar ajuda em grupo específico para mim o Amor Exigente e NAR-ANON, acredito que quando criamos a consciência e conhecimento do problema fica mais fácil de reagirmos. Tenho dois irmãos alcoólatras e uma irmã que está indo para o mesmo caminho, e se toda minha família criasse esta consciência seria mais fácil ajuda-los. O que percebo é que quanto mais cedo temos contato com drogas/álcool o caminho para eles se torna inevitável e isto é muito real. Obrigada pela ajuda e divulgação do problema que ainda é considerado tabu dentro das famílias.

X – 42 anos
São Paulo

Entrevista com B

ODQ – Bom gostaria que você iniciasse dizendo quem é você, como era sua vida e o que levou você a se interessar pela droga?
B – Meu nome é B, tenho 27 anos e eu sou um adicto em recuperação. Não faço uso de drogas há 3 anos e dois meses. Sou filho único de uma família que sempre considerei normal. Haviam brigas e confusões dentro de casa e eram constantes essas brigas quase sempre por constantemente morar algum parente do meu pai em casa. Essas pessoas bebiam em casa, mas nunca foi de forma abusiva, era mais em festas e não me lembro de algo significativo relacionado a isso. Existia muito abuso verbal, meus pais sempre se ofendiam muito nessas brigas, quebravam coisas em casa, mas nunca se agrediram ou a mim fisicamente. Essas brigas acabaram por me afastar cada vez mais dos dois, sentia raiva tanto da minha mãe quanto do meu pai que já é falecido, sempre havia a eminencia do divorcio, ouvia esse papo pelo menos uma vez ao mês e demorou muito tempo para que isso de fato acontecesse. Como desde cedo tinha muita dificuldade em me aceitar como era um menino tímido, bom aluno e comportado, o sobrinho favorito das minhas tias e aluno favorito das professoras nos primeiros anos na escola, nunca gostei disso, sempre quis ser como um dos meus primos, que aterrorizavam a família quando chegava, eu queria ser assim e com essas brigas constantes minhas insatisfações e decepções comecei a buscar meus heróis em outras figuras, que quase sempre eram vilões, seja na minha rua, na escola, em filmes e na musica, comecei a me interessar pelo errado, pelo mal a torcer para o bandido e não pelo mocinho. Acredito que tenha sido essas coisas que me levaram a ter interesse pela droga.Meu Primeiro contato com a droga foi “mágico”, consegui encontrar exatamente o que buscava, me tirava de minha realidade, alterava minha percepção e de quebra dava um tapa na cara de todos que me achavam “bonzinho”.No inicio eu usava em alguns eventos, para fazer determinadas coisas, depois passei a usar para fazer tudo e terminando parando de fazer tudo e fiquei usando, nunca tive nenhuma descriminação com nenhum tipo de droga.Comecei com o álcool, passei para a maconha, depois parti para a cocaína até chegar ao crack meu fundo de poço.

ODQ - Você passou por algum tipo de tratamento?
B – Passei por uma internação, não por decisão própria, mas por intervenção de minha mãe e minha namorada. Quando disse que estava usando (só eu achava que isso era um segredo), elas ficaram do meu lado e me ofereceram essa oportunidade, uma pessoa ligada a minha namorada, um adicto em recuperação foi até nós para apresentar algumas opções. Apesar de ter resistido e garantido a mim mesmo que não iria usar isso durou poucos dias e tive mesmo de ser internado.

ODQ - Como foi saber que era um adicto/alcoólatra?
B – A princípio é claro que neguei e disse a mim mesmo que era diferente daquelas pessoas que estavam internadas comigo, e que eu não era a pessoa que os terapeutas descreviam, eu na verdade tinha muito medo de viver algo que fosse diferente do que já conhecia. Como eu podia viver sem a coisa mais importante da minha vida? Absurda essa pergunta mais era essa a importância da droga na minha vida, e mais fazia tudo por “só mais uma”. Depois de alguns dias na instituição as coisas foram se acalmando dentro da minha cabeça e comecei a sentir certo alivio em saber que eu não era o mal caráter que imaginava e que muitos falavam que eu era, mas era portador de uma doença física, mental e emocional, a adicção.

ODQ - Você teve alguma recaída?
B – Aceitei apenas algumas coisas, eu não acreditava que álcool fosse um problema para mim, quando sai da internação, por indicação dos terapeutas procurei um grupo anônimo, eu me tornei membro de NA. Fui muito bem recebido e me disseram que eu era a pessoa mais importante na reunião, criei o habito de frequentar as reuniões que me ajudavam muito, mas ainda assim não engolia o papo de “Álcool é droga”, pra mim parecia muito radical e nunca tinha tido problemas com álcool, pelo menos era disso que tentei me convencer, poucos dias depois de sair da internação, na noite de natal, algumas pessoas estavam bebendo na porta da empresa onde trabalhava, eu sabia que deveria passa direto e evitar aquelas pessoas, mas não o fiz parei e acabei bebendo, nos dias seguintes senti muita vontade de usar, mas não usei, então me convenci de que deveria ficar algum tempo sem beber, minha ideia: uns seis meses”. Foi aí que em uma das reuniões de NA ouvi um companheiro partilhando sobre sua experiência, que era alcoólatra e que ficou anos sem beber, frequentando AA, mas passou a usar drogas, logo imaginei o que estava me esperando com esse pensamento de voltar a beber e desde aquele natal eu não uso álcool ou drogas.

ODQ - Como está agora limpo, em recuperação?
B – É uma fase totalmente nova da minha vida, hoje eu tenho a verdadeira liberdade de ser eu mesmo, de não precisar alterar meu humor com nenhuma substancia, para diminuir a dor ou aumentar minha euforia, hoje eu sinto coisas de verdade, meu sorriso e minha lagrima são verdadeiras e espontâneas. Já não passo madrugadas pela rua ou enfiado dentro do meu quarto, trancado e com medo de alguém entrar, esse era meu maior pesadelo, uma prisão que eu havia criado pra mim mesmo, dentro da minha cabeça. Hoje eu sou filho, namorado, profissional, aluno e adicto em recuperação. Experimento todas as coisas que um dia me oferece, sejam elas positivas ou negativas, estou me tornando uma pessoa muito mais feliz do que imaginei que conseguiria, hoje meu mundo não esta mais restrito aquelas ruas, becos e ao meu quarto trancado, hoje eu sou livre para praticar uma maneira totalmente nova de viver e isso é muito gratificante.

ODQ - Como vive seu dia a dia de recuperação?
B – Eu vivo um dia de cada vez e tento manter as coisas simples (o que é bem difícil pra um cara como eu). Frequento reuniões regularmente, fiz novos amigos dentro de NA, pessoas que como eu buscam esse estilo de vida, sem drogas ou álcool, pessoas em recuperação. A maioria das coisas que dão certo são as que disseram no inicio do meu processo de recuperação e que trago até hoje em minha vida, eu evito pessoas, lugares e hábitos da época em que usava, qualquer coisa que possa me levar de volta ao uso eu afasto e mantenho longe da minha vida. Tenho um padrinho, que é alguém com maior experiência que a minha e que me ajuda a trabalhar o programa de NA. Hoje eu sirvo a irmandade de Narcóticos Anônimos e levo a mensagem a outros adictos que ainda sofrem nos horrores da adicção, a mensagem é “Um adicto, qualquer adicto, pode parar de usar, perder o desejo de usar e encontrar uma nova forma de vida”. Todos os dias eu tento ser mais honesto, principalmente comigo mesmo, mais paciente com as pessoas com quem eu convivo ser menos egoísta e claro não uso haja o que houver! Esse programa de NA me deu uma nova visão do que é a vida e de como eu de fato quero vive-la e só por hoje vem dando certo, trabalho, namoro e melhorei meu relacionamento com minha família principalmente minha mãe. Hoje eu tenho vontade de viver e não de usar que para mim é a morte, mesmo que eu continue vivo.

ODQ - o que gostaria de falar sobre você ou qual mensagem gostaria de passar para as pessoas?
B – Que a recuperação é possível e que existem muitos meios de se chegar a ela, o que relatei foi o que deu certo pra mime vem funcionando para milhares de outras pessoas, centenas eu conheço pessoalmente e tenho certeza que falariam algo muito parecido com o que te disse. Nós realmente nos recuperamos e só por hoje eu não vou usar e vou ser muito feliz.

B – 27 anos
São Paulo

Considerações Finais

Observando tanto o relato de X como a entrevista de B fica claro que o ambiente familiar disfuncional colabora em muito para a vivência da experiência com a dependência química.
As famílias que tem por costume o consumo de álcool seja social ou não induzem á criança a esse mundo, pois a criança aprende observando os pais e os mais velhos e entende que ela beber vai fazer dela um "adulto".
Em ambientes de violência (verbal e/ou física) por motivação de álcool ou não a tendência dessa criança ou adolescente enxergar a vida através das ações de seus pais ou dos mais velhos é muito grande, passa a pensar que isso é assim mesmo e depois com passa a repetir esses padrões nas suas vidas pois a repetição é o forma primária de aprendizado do ser humano e se manifesta de forma instintiva nas pessoas.
Essa repetição fez com que X buscasse em seus relacionamentos pessoais, pessoas parecidas com a de seu lar por se tratar de algo que ela já conhecia e pensava saber lidar.
Para B não foi muito diferente com a visual desilusão com seus heróis (pai e mãe) passou a se interessar pelo ruim por achar que essa era sua melhor escolha e quanto mais se encontrou ali mais fácil era de suportar aquila realidade.

Agradeço imensamente a colaboração de X e B creio ter sido de muita importância para os leitores do blog. Obrigado por compartilhar suas vivências e desejo não só a vocês mas a todos muitas alegrias em suas jornadas pessoais.
Recuperação a todos!

Boa semana a todos e até o próximo post.

OBS: Por favor não deixe de comentar é muito importante seu retorno.



domingo, 3 de março de 2013

Aceitação é a solução

Aceitação é a solução para todos nós. Independente do problema que se vive aceitar que isso é real pode abrir uma porta para a solução do mesmo.
No nosso caso aceitar que estamos sofrendo por causa da dependência química ou alcoolismo próprio ou de alguém que amamos pode nos ajudar a abrir a porta da busca de ajuda para resolver o problema.
Qual é o problema então?
O problema é a negação, ela nos impede de ver as coisas como realmente são. Para a maioria dos seres humanos a negação é um ato quase que natural, passamos por diversas situações na vida que nos remetem a ela e ela nos protege da verdade que não queremos assumir, sentir ou encarar como, por exemplo, a morte de alguém, perceber e assumir erros, que o problema é nosso sim, que isso não podia ter acontecido e por ai vai.
Para o dependente químico e alcoolista a negação defende ele da responsabilidade de tomar uma atitude sobre seu uso compulsivo. Nega o problema mesmo que isso esteja claro e evidente para ele, assim ele se protege de se sentir um fracassado ou impotente.
Para os familiares e amigos essa negação os impede de ver que existe algo de errado com aquela pessoa amada, que isso não está acontecendo com você, na sua família ou mesmo que isso não está acontecendo ao mundo todo e que sua atenção ao assunto é de suma importância.
Existe um formato de proteção do EU que os seres humanos utilizam quase que instintivamente por diversos motivos ou situação, independentemente de qual seja ela, esta proteção alimenta essa negação e esta proteção é conhecida por barreiras de negação e é composta por 8 pontos que funcionam assim:


1 – Repreensão – protege do medo de ser repreendido pela família ou pela sociedade tanto por parte do dependente/alcoolista como para familiares e amigos.
2 – Minimização – o problema é minimizado pelo dependente e pela família.
3 – Justificativas – justificam o problema baseando-se em fatos pregressos ou cotidianos tanto de âmbito cognitivo, pessoal ou mesmo social.
4 – Mentiras – nega o problema, mente sobre o real tamanho do problema, defendem-se da verdade.
5 – Projeção – projetam nos outros ou em situações reais ou não do presente ou do passado o causador desses problemas.
6 – Racionalização – buscam explicações racionais para suas justificativas e mentiras.
7 – Apagamentos  – negam por se esquecerem dos fatos (mais por parte do dependente que sobre efeito principalmente de álcool reduzem sua capacidade de memória)
8 – Memória Eufórica – sempre se lembram dos momentos bons, da euforia, da festividade e outros.

A aceitação é a única solução para quebrar essas barreiras, ela demanda muita coragem e honestidade por parte do dependente/alcoolista e dos familiares e amigos.
Negar o fato que o problema existe só vai dar margem ao problema se agravar, lembre-se ou aprenda que a doença é progressiva e ela progride sempre para pior.
Esconder o problema não vai resolver nada, você vai continuar sofrendo sozinho(a) quando o melhor é compartilhar, tem um frase que deixa claro isso: “sofrimento compartilhado, sofrimento diminuído”, ou mesmo “a dor não pode ser evitada, o sofrimento sim”.
Se estiver com problemas, simplesmente aceite que você precisa de ajuda para resolvê-los, sejam eles quais forem. Como falei em uma de minhas postagens anteriores “Porque?” existem pessoas dispostas a ajudar e compartilhar suas experiência, não deixe de utilizar essa poderosa ferramenta.

Boa semana a todos até o próximo post.

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Salve-se quem puder, enquanto puder, se puder.

Olá!
Pessoal quero dizer que estou muito feliz com o apoio de vocês na divulgação do blog, muito obrigado a todos.
O negócio está complicado viu! Cada dia só piora. Só sofrimento. Pensando assim hoje desejo compartilhar com vocês alguns dados referentes ao atual momento que o país vive em relação à dependência química.
Estes dados foram divulgado no segundo semestre do ano passado pela UNIAD, mas acredito que é de suma importância para nós interessados no assunto.
Este estudo foi concluído em março de 2012

Maconha

Obs. Dados em escala de milhão de pessoas.

População adulta: o estudo apontou que 7% da população ou seja 8 milhões dos adultos já experimentaram a droga sendo  que destes 3 milhões fizeram uso no ultimo ano ou 3% da população adulta do país.
Adolescentes: 4% ou 600 mil adolescentes já experimentaram maconha sendo que 3% ou 470 mil são dependentes.
Das 8.600 mil de pessoas, 3.470 mil pessoas usaram no último ano, destas 1.500 mil pessoas utilizaram todos os dias.
62% experimentaram antes dos 18 anos.
Estes números sobre o Brasil vêm sendo questionados pela Organização das Nações Unidas pelo fato da apreensão dessa droga no país ser uma das maiores do mundo.
1/3 dos adultos já tentaram parar de usar maconha e não conseguiram.
1 a cada 10 homem adulto já experimentou maconha na vida.
40% dos consumidores adultos de maconha são dependentes.
Homens usam maconha 3x mais que mulheres.
1 a cada 10 adolescente consumidor de maconha é dependente.

75% da população brasileira é contra a legalização da maconha.

Cocaína e Crack

Obs. Dados em escala de milhão de pessoas.

Cerca de 6 milhões de brasileiros já experimentaram alguma apresentação da cocaína na vida (cheirada ou fumada).
Adultos: 5.600 mil já experimentaram sendo que 2.600 mil fizeram uso no último ano (12 meses).
Adolescentes: 442 mil já experimentaram sendo 244 mil no último ano.

1 - Cocaína cheirada:
Adultos: uso na vida 5.100 mil e nos últimos 12 meses 2.300 mil.
Adolescentes: uso na vida 316 mil e nos últimos 12 meses 226 mil.
Total: 2.526 mil.

2 – Crack/Oxi
Adultos: 1.800 mil na vida com 1 milhão nos últimos 12 meses.
Adolescentes: 150 mil na vida e 18 mil no último ano
2 milhões de pessoas usam maconha e cocaína de forma concomitante.
No último ano (12 meses) 70% dos usuários de cocaína usaram maconha e 41% dos usuários de maconha fizeram uso de cocaína.
27% usaram todos os dias nos últimos 12 meses.
14% dos usuários de cocaína já injetaram a droga uma vez na vida.
45% experimentaram antes dos 18 anos.
A Região Sudeste do país é a maior consumidora desta droga com 46% do total nacional esse percentual corresponde á 1.400 mil pessoas, 5.5% deste com uso na vida e 2.2% no último ano.
A região nordeste vêm em segundo lugar com 27% do total nacional 800 mil pessoas e em seguida a região Centro-Oeste com 10% do total ou 300 mil pessoas.
Hoje no país 22% da população conhecem alguém com problemas de uso de cocaína/crack.
Somente 30% pretender para nos próximos meses.
Apenas 1% procurou ajuda ou tratamento.

O Brasil representa 20% do consumo mundial de cocaína/crack.
É o principal mercado de crack no mundo.

Diante destes dados alarmantes questiono: onde isto vai para?
Como diria um personagem da TV: agora quem poderá nos ajudar?
Sinceramente não sei e é por isso que digo a todos vocês que precisamos nos ajudar, nós profissionais da saúde, membros de irmandades, familiares e amigos, não tem jeito por enquanto somos a frente principal nesta batalha.
Como diz o título da postagem: Salve-se quem puder, enquanto puder, se puder.
A melhor solução para isto até hoje é: FIQUE FORA DISTO. DROGAS ESTOU FORA!

Boa semana a todos e até o próximo post.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

De volta ao crack


Tenho contato com usuários de crack há 21 anos. Em entrevista à jornalista Cláudia Colllucci, publicada na Folha em 28 de Janeiro, expus o que penso sobre a internação dos usuários contumazes. 
Recebi alguns e-mails de pessoas que concordaram com as razões por mim expostas; outros, com críticas civilizadas e inteligentes, como as de meu colega da Folha Hélio Schwartsman, de quem sou leitor assíduo; outros, ainda, indignados, que só faltaram acusar minha progenitora de haver abraçado a mais antiga das profissões.
Ao defender a internação, expressei minha revolta contra os que politizam esse tema, com jargões dos anos 1960. Infelizmente, alguns profissionais que prestam assistência a usuários nas ruas sentiram-se ofendidos. A eles peço desculpas, não foi minha intenção generalizar, eu me referia aos que se manifestam em consonância com agendas pessoais distantes da realidade.
Quando exponho ideias que são contestadas por quem pensa de maneira radicalmente oposta, procuro fazer um esforço sincero para aceitar os argumentos contrários como se fossem meus, e tivesse que defendê-los num debate imaginário. Esse contorcionismo intelectual tem me ajudado a rever posições que julgava definitivas.
Neste caso, entretanto, há aspectos que me impedem de mudar de opinião, ainda que me acusem de autoritário e fascista, deformações alheias à minha personalidade.
Minha experiência com usuários de crack começou na antiga Casa de Detenção, em 1992, ano em que essa praga desalojou no presídio e nas ruas a moda de injetar cocaína na veia.
Perdi a conta de quantos óbitos atestei nos dez anos seguintes; meninos e homens maduros mortos por overdose ou assassinados a facadas por seus credores. Vi jovens fortes definharem até a caquexia, contrair tuberculose e morrer com o cachimbo ao lado. Fiz diagnóstico de infarto do miocárdio e derrame cerebral por overdose em rapazes de menos de 30 anos. Ladrões de renome entre seus pares suplicavam para ser trancados em cela forte, única saída para fugir da tentação.
Hoje, na penitenciária feminina, vejo meninas presas na cracolândia repetir o que jamais imaginei ouvir: "Graças a Deus vim presa. Se continuasse naquela vida, já teria morrido".
Internar à força alguém em pleno domínio das faculdades mentais é inaceitável, mesmo quando há risco de suicídio. Decidir conscientemente despedir-se da vida é direito tão inalienável quanto o de lutar para preservá-la.
A diferença, no caso do crack, é que não consigo me convencer de que o menino com o cobertorzinho nas costas, pele e osso, sem forças sequer para roubar, reúna condições psíquicas para tomar outra decisão que não seja a de ir atrás da próxima pedra.
Não falo de usuários ocasionais, passíveis de abordagem ambulatorial, mas de pessoas gravemente enfermas que correm risco de morrer de pneumonia, tuberculose, overdose ou nas mãos dos desafetos.
Deixá-los nas ruas à espera de que resolvam procurar ajuda por livre e espontânea vontade ou sejam convencidos por profissionais competentes e bem-intencionados pode dar resultados concretos para alguns casos, mas exige um tempo de sobrevivência que a maioria dos doentes mais graves não dispõe.
Você poderá dizer que essa estratégia é cara e de eficácia duvidosa. Pode ser, mas para os casos mais dramáticos não vejo outra.
Mesmo que ao sair da clínica o usuário recuse o acompanhamento ambulatorial e volte para a cracolândia, terá valido a pena. Estará com mais saúde, terá recuperado parte do peso perdido e sido tratado das doenças que o debilitavam.
Se for mulher grávida, terá acesso aos exames pré-natais e chance de permanecer abstinente até o fim da gravidez, possibilidade remota na rua.
É evidente que o impacto será muito menor se, ao receber alta, o ex-usuário for abandonado à própria sorte. Haverá necessidade de recursos financeiros para a criação de ambulatórios e formação de pessoal especializado. Também custará caro, mas a sociedade está diante de uma tragédia humana sem precedentes.
Todos os países que destinaram áreas públicas para o consumo de drogas ilícitas desistiram da experiência porque houve aumento da mortalidade. Nossas cracolândias por acaso não são espaços públicos destinados ao livre consumo?

Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".